Devir e comunicação
 

"Semiótica da cultura e semiosfera

Irene Machado (org.)

Formato 16x23cm, 304 páginas, R$ 45,00
acompanha CD-ROM
ISBN 978-85-7419-737-1

O conceito de semiosfera tem sua história e historicidade, e ambas são ainda as incógnitas de nossa equação. Nesse sentido, os trabalhos realizados ao longo de quase dois anos e que culminaram no I Encontro Internacional para o Estudo da Semiosfera são esforços para compreensão das incógnitas deste campo teórico-conceitual. A riqueza desse empreendimento científico, resultante de uma cooperação e compartilhamento internacional entre pesquisadores, é a substância viva deste livro, aliás, um produto final do compromisso assumido pelo Grupo de Pesquisa para o Estudo da Semiosfera a ser compartilhado com estudiosos e pesquisadores brasileiros interessados nos temas da semiótica da cultura – como convém repetir. Aproximações, distinções, extensões, divergências de idéias, que foram apresentadas nos ensaios aqui reunidos, são demonstrações de algo que se insinua como um projeto. Quer dizer, um domínio científico que demanda investimentos continuados, em várias áreas, para que se possa construir, minimamente, uma esfera de conhecimento, de modo a colher frutos de sua historicidade.


Sumário sintetizado

Prefácio
Boris Schnaiderman


Apresentação: por que semiosfera?
Irene Machado


Capítulo 1: Campo conceitual da semiosfera

Semiosfera: exploração conceitual nos estudos semióticos da cultura
Adriana Vaz Ramos, Andréa Mello, Carmem Luísa Cavalcanti, Débora Cristina Rocha, Fábio Sadao Nakagawa, Mirna Feitoza Pereira, Regiane Caminni Pereira, Regiane Miranda de Oliveira Nakagawa


Semiosfera como objeto de pesquisa na semiótica da cultura
Peeter Torop


Circuitos dialógicos: para além da transmissão de mensagens
Irene Machado


Semiosfera e a ecologia dual: paradoxos da comunicação
Kalevi Kull


Iúri Lótman: cultura e suas metáforas como semiosferas auto-referenciais
Winfried Nöth


Capítulo 3: Diálogo entre teorias

Semiosfera e o conceito de Umwelt
Jorge de Albuquerque Vieira


O conceito de semiosfera à luz de C. S. Peirce
Lucia Santaella


A semiosfera e o domínio da alteridade
Göran Sonesson


O (im)possível diálogo Bakhtin-Lótman: para uma interpretação das culturas
Pampa Olga Arán


A resposta da Escola de Tártu a Bakhtin e um escandaloso silenciamento da ciência ocidental
Desidério Navarro


Capítulo 3: Análise de sistemas culturais

Relações entre sistemas no interior da semiosfera
José Luiz Fiorin


As esferas da interculturalidade
Mohammed Elhajji


A circularidade do conhecimento
Lucrécia D´Alessio Ferrara


"Clio na Encruzilhada"
Jerusa Pires Ferreira


Configurações migrantes: semiosfera e fronteiras em textos da cultura latinoamericana
Silvia N. Barei


Trânsito entre oralidades: do corpo-mídia ao corpo inserido na mídia
Carmen Lúcia José


A memória da cultura e a memória da mídia em produtos audiovisuais infanto-juvenis
Mônica Rebecca Ferrari Nunes


Considerações finais

Apontamentos para a historicidade das idéias precursoras da semiosfera
Irene Machado"



Escrito por J. Isaías Venera às 09h01
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  Como resistir à Sociedade do Espetáculo?

Casa Aberta promove grupo de estudo no próximo dia 13

 

“O mundo em um minuto”. Menos de 60 segundos e mudamos de canal. “Bebê é jogado no rio”. “Quem matou Tais?”. Imagens e mais imagens. O dia se passa, e as imagens também. O que fica? Muito pouco. No dia seguinte repetimos o mesmo movimento. Lemos os mesmos jornais. Assistimos aos mesmos programas. Conversamos sobre os mesmos assuntos. A vida parece ser uma grande repetição. Mudam as imagens, mas fica a impressão de que é mais do mesmo. Uma espécie de eterno retorno do mesmo. A diferença está no valor. Veja. É sempre o mesmo discurso. As mesmas imagens. O espetáculo está criado. Os meios de comunicação invadem nossa privacidade e nos convocam a participar do espetáculo. Participar de forma passiva. O sentido é sempre maniqueísta. Não há dúvida. Não há abertura para questionamentos. Os fatos são mostrados e o veredicto sentenciado. Quem matou Tais? Pouco importa se foi o Olavo. Os maus foram classificados desde o início. Veja, não é a mesma coisa. Mesmo nos nossos sonos diurnos, as imagens estão presentes.

“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Esse pensamento condensa a tese central do livro e do filme “A sociedade do espetáculo”, de Guy Debord. Um desdobramento do fetiche da mercadoria, da crítica marxista. Essa fórmula exerce o poder de minar a lógica totalitária do pensamento massificado e aciona, ao mesmo tempo, o oposto do que denuncia. Como pensar fora do já pensado? Como construir uma forma de pensar e existir que resista ao pensamento da maioria?

Sob a influência de autores que acreditam que a vida existe quando algo de novo é criado, é que no sábado, 13, o sebo Casa Aberta passa a promover quinzenalmente o encontro do Grupo Ideais do Avesso (GIA), às 10h. A intenção é reunir pessoas interessadas em refletir a cultura, a identidade e a realidade atual, a partir de autores que propagam uma voz dissonante da maioria. Aliás, é contra o pensamento maior, massificado, controlado, regulado, disciplinarizado, falseado, espetacularizado, fetichizado, que práticas de resistência podem surgir. Resistir à vida como representação midiática, pautadas em simulacros. Resistir ao que tem como efeito inibir o próprio ato de refletir sobre a realidade. “Para que refletir sobre o óbvio? Ao que solta aos olhos. A verdade exposta.” É contra essa forma de pensar, a de um sacerdote ou de uma fascista, que se torna importante o encontro de pessoas que aceitam dialogar. Para isso, o GIA se propõe ser um espaço de idéias nômades, onde o pensamento tenha o movimento de um artista que ousa enfrentar o lugar cômodo do já conhecido, do já pensado, do já sentenciado e, assim, sinalizar que é possível reinventar novas formas de interpretar e viver o presente.  

 

Organização do GIA

 

Os encontros serão quinzenais, sempre aos sábados, a partir das 10h. Nesta primeira edição, os interessados assistirão ao filme Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, principal integrante do movimento Situaconista (1958-1972). Em seguida, o professor José Roberto Severino apresentará uma breve contextualização do cineasta e escritor e de sua trajetória intelectual, dando início ao diálogo que deverá de se suceder.



Escrito por J. Isaías Venera às 23h36
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  Psicanálise e Cinema

A Maiêutica – Instituição Psicanalítica – está promovendo o encontro ESCUTANDO IMAGEM, na próxima sexta, 28, às 19h30. Foi escolhido o filme LAVOURA ARCAICA, direção de Luiz Fernando Carvalho. O evento é coordenado Alberto Philippi May que, após a assistir ao filme, fará uma interpretação com abordagem psicanalítica. Para debater, foram convidados Benjamim Franklin, Claudemir Flores, Gustavo Lopes, alunos do curso de formação da Maiêutica.

O endereço é: Rua Felipe Schmidt 321 - sala 203/204 - Centro – Florianópolis.

 

 

 

Sinopse: André é um filho desgarrado, que saiu de casa devido à severa lei paterna e o sufocamento da ternura materna. Pedro, seu irmão mais velho, recebe de sua mãe a missão de traze-lo de volta ao lar. Cedendo aos apelos da mãe e de Pedro, André resolve voltar para a casa dos seus pais, mas irá quebrar definitivamente os alicerces da família ao se apaixonar por sua bela irmã Ana.

 

» Direção e Roteiro: Luiz Fernando Carvalho
»
Gênero:
Drama
»
Origem:
Brasil
»
Duração: 163 minutos

» Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Caio Blat

 



Escrito por J. Isaías Venera às 05h39
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  Lançamento de livro

Casa Aberta promove lançamento de livro

“Tempo de ordem” é um elogio incidental à inutilidade e à preguiça

 

No próximo sábado, 22, às 10h, o jornalista José Isaías Venera lança seu primeiro livro, “Tempo de ordem: a construção discursiva do homem útil”, no sebo Casa Aberta, em Itajaí. O autor, que publicou a obra pela Editora Univali, analisa excessivamente fontes das primeiras décadas século 20, com destaque ao Estado Novo (1937-1945), para mostrar uma verdadeira arquitetura discursiva de disciplinamento de corpos e mentes. Uma realidade fabricada para produzir homens úteis à Nação. As fontes históricas, como artigos de jornais, leis, decretos, livros da época e cadernos de leitura usados nas escolas estaduais tecem uma imagem de intolerância e que produz um mal-estar na sociedade. É neste sentido que, para o analista do discurso, Pedro de Souza, que escreveu a apresentação, “Tempo de ordem” é um “elogio incidental à inutilidade”.

Com inspiração em Franz Kafka e Michel Foucault, o autor percorre significantes que expressam ordem e funcionam a martelada no mais íntimo das pessoas, como uma voz que impõe uma única forma de existir. Ao mesmo tempo em que o autor mostra o ordenamento do Brasil por meio, sobretudo, da campanha de nacionalização no Estado Novo, deixa uma porta aberta, como a de um castelo por aonde os plebeus eram lançados para fora, quando não tinham mais utilidade ou não se deixavam ser adestrados. Por esta porta, Venera indica que, ao inventar um país cristão, de uma única língua e com uma única forma de fazer política, fabricou-se também o anormal, entre eles: alienígenas, imigrantes-descendentes, quinta-coluna, integralistas, nazi-fascistas. Entre as revelações que se encontram no livro, o fechamento de 298 escolas em Santa Catarina, no período de 1937 a 1945, e, muitas das vezes, nem eram escolas alemãs, bastava o professor ter um sotaque mais carregado e, às vezes, usar expressões em outra língua, para que a escola fosse fechada. Em Itajaí, comenta o autor, a única escola alemã, fundada em 1876, foi fechada em 1939.

Para Venera, o mais relevante de seu trabalho é o segundo capítulo, intitulado “O homem útil na Série Fontes: a criança entre a docilidade e o desvio”. Ao analisar a Série Fontes, composta por uma cartilha e quatro livros de leitura, evidenciou como os discursos da época formaram as condições para a produção de uma determinada subjetividade. Com isso, o autor leva o leitor a um lugar desconfortável: de que muitas vezes as nossas ações e os nossos pensamentos surgem, na verdade, uma outra voz que pensa por nós. O historiador José Roberto Severino resumiu “Tempo de Ordem” ao dizer que Venera “cuidadosamente, desconecta nossas ilusões contemporâneas e, como em Matrix, diz da gênese da maquinaria que produz o desencantamento do mundo que nos rodeia”.

O historiador Felipe Falcão, no prefácio do livro, comenta que Venera ao evidenciar o mal-estar na produção do homem útil, acaba por operacionalizar a noção de utilidade na modernidade, que teve sua emergência cerca de três séculos atrás, com a consolidação de uma ordem burguesa. Foi neste período que os corpos e as mentes passaram a ser objeto de um amplo projeto político e que as escolas se inscreveram como uma importante maquinaria dos estados nacionais para produzir cidadãos úteis à nação. Felipe pontua a origem deste amplo projeto de construção do homem útil, para, com isso, mostrar o oposto, o direito à preguiça, através da referência a Paul Lafargue, um militante socialista que teve destaque na I e na II Internacional.

O livro “Tempo de Ordem”, ao mostrar os dispositivos usados para construção de sujeitos úteis à nação, potencializa a vida no seu direito à preguiça e à inutilidade, mesmo que essas condições humanas não sejam, diretamente, ditas por Venera, mas estão presentes como uma voz que clama por libertação.

Na mesma ocasião, o grupo de escritores do CLAP (Caderno Literário), que se reúne quinzenalmente para a realização do Sarau Benedito, vai estar presente recitando poesias e fazendo outras performances referentes ao tema do livro.

 

 

O quê? Lançamento do livro: ““Tempo de ordem: a construção discursiva do homem útil” do jornalista José Isaías Venera.

Onde? Livraria Casa Aberta, Rua Lauro Müller, 83 (ao lado da caixa econômica)

Quando? Sábado, dia 22 de setembro, às 10 horas.

Mais informações: (47) 3045-5815, ou com Isaías, pelo 9912.0373.

Roberta Bittencourt (SC-01528-JP)



Escrito por J. Isaías Venera às 23h59
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  Incursões de “Vapor Barato”

 

Gal Costa é impar. De voz vibrante. Harmoniosa. Pouco antes de ressoar sua voz no 10º Festival de Música de Itajaí, Gal informou que alteraria uma música no seu repertorio. Porque será que “Vapor Barato” foi inserido no último momento? Outra questão sem resposta ainda me faz esboçar este texto sem objetividade alguma. O que a fez não dar uma coletiva à imprensa local? Ouvi esta pergunta diversas vezes ao longo do dia. “Oh, sim, eu estou tão cansado / Mas não para dizer que não acredito mais em você”, inicia a canção “Vapor Barato”, de seu compacto duplo com quatro canções, de 1971.

Gal estava em paz. Mas tive a impressão que o tempo deixou seu semblante suave, com uma rostidade de que já não permite mais vivenciar utopias. Que não acredita mais que algo de diferente possa ser feito. Criado. Inventado. É como se as canções que falam de um cotidiano underground, passagem a ressoar na voz vibrante de Gal, mas sem a expressão de uma mulher mergulhada no imaginário dos anos 70, quando a falta de liberdade no regime político parecia ser o motivo para se inventar novos mundos. A literatura e a literatura nas canções criam novos espaços de significação, de compartilhar idéias e, muito mais, de vivenciar a canção numa melodia e num timbre de voz que dá vida, talvez,  a mais importante invenção humana. Nas músicas em que a letra encanta tanto quanto a sonoridade se pode perceber com mais nitidez o que conduz os desejos na história.  

“Com minhas calças vermelhas/ Meu casaco de general/ Cheio de anéis/ Vou descendo por todas as ruas/ Vou tomar aquele velho navio/ Eu não preciso de muito dinheiro”. Hoje, basta transitar pelos mais diferentes espaços, sejam em livrarias, shoppings, ou mesmo caminhar pelos corredores da universidade e se deixar ouvir de relampejo os diálogos que impulsionam os desejos das pessoas, para se perceber que o modo como elas se engajam na vida, nada tem mais a ver com os anos 60 e 70, tempo em que tantas canções que marcam a MPB foram criadas.

Parece que há um certo modo em comum de significar o presente que permite criar um estilo de música e de compor letras, como se houvesse um horizonte construído pela linguagem em que pessoas de lugares bem diferentes acabam se conectando. Um exemplo disso é a canção “Negro amor”, que Gal não cantou, nem a pedido de alguns sonhadores que estavam na platéia arrebatados pela sua voz. “Negro amor” conecta Gal com Boby Dylan. Em 1965, Boby Dylan lançou “Bringing It All Back Home”, que trazia nada mais que “Baby Blue”, uma de suas mais belas canções. Pouco depois, Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti fizeram uma tradução para o português da música que ficou conhecida na voz de Gal Costa, no seu lendário LP “Caras e Bocas”, de 1977. Gal Costa que lançou seu primeiro disco em 1969 e nos anos 70 dividiu com Elis Regina a fama de melhor intérprete da MPB, fez um show no 10º Festival de Música que, em parte salpicou canções de sua discografia, mas que teve também um certo tributo a João Gilberto, sua grande referência na Bossa Nova.

 



Escrito por J. Isaías Venera às 12h49
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01 a 09 de setembo

Itajaí

 

Beth Carvalho – sábado

Quatro a Zero - domigno

Banda de Boca - segunda-feira

Arthur Maia e Banda - terça-feira

Zezé Motta - quarta-feira

João Donato - quinta-feira

Gal Costa - sexta-feira

Demônio da Garoa - sábado

Elba Ramalho - domingo

 

Mais informações:

www.fundacaoculturaldeitajai.com.br



Escrito por J. Isaías Venera às 22h28
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Ontem eu dei uma passada na revistaria do shopping e comprei a Bravo! É uma edição especial que saiu dedicada a apresentar o ranking das 100 melhores produções da história do cinema. Eu gostei do que vi e li. Encontrei também algo que coincidiu com a minha opinião, relacionados aos melhores filmes do Bergman. Na postagem anterior, havia comentado sobre o caderno Mais! da Folha de São Paulo que dedicou um bom espaço para falar da vida e obra do Bergman e do Antonioni e que eu não concordava de o filme Persona não estar entre as melhores produções do cineasta da Suécia. E não é que na Bravo! aparecem dois filmes do Bergman entre os 100 melhores da história do cinema e, um deles, é o Persona, na 13ª colocação. O clássico O sétimo selo aparece na 26ª colocação.

Estão, também, quatro filmes brasileiros: Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, Pixote – A lei do mais fraco, de Hector Babenco, e, literalmente por último, Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho. Não há dúvidas sobre o filme nacional mais bem colocado, além do mais Glauber Rocha já é ícone do nosso cinema engajado, politizado... Meu questionamento fica com o Cidade de Deus, que pode ter suas qualidades, mas não para figurar como o segundo melhor filme nacional. Para mim, ele está longe deste lugar. Mas confesso que fiquei surpreso ao ver Lavoura Arcaica neste ranking. Considero que este é um filme universal. É uma das mais belas e inquietantes produções do cinema. Fico surpreso pelo fato de ser um filme brasileiro tão pouco conhecido em nosso próprio país. Ele tem uma estética mais lenta e poética, muito coerente com a escrita de Raduan Nassar.

Senti falta também de alguns filmes nesta listagem, como, por exemplo: O triunfo da vontade, de Leni Riefenstahl (será que seria politicamente incorreto indicar este filme?), Fausto, de F. W. Murnau, A liberdade é azul, de Kielowski, Abril despedaçado, de Walter Salles, Cidade das mulheres,  de Frederico Fellini, La Luna, de Bernardo Bertolucci, Terra em Transe, de Glauber Rocha, The Wall, de Alan Parker... há outros tantos para citar, mas não me atrevo a apontar quais sairiam da lista. Definir uma ontologia cinematográfica é um desafio impossível de ser bem sucedido.

Para terminar, o filme com estética inspirada no teatro bretchiano, Dogville, de Lars Von Trier, aparece somente na 88ª posição, eu o deixaria entre os primeiros.



Escrito por J. Isaías Venera às 00h27
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No último domingo, o caderno Mais! da Folha de São Paulo foi dedicado aos cineastas Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, que morreram no dia 30 de agosto. Entre os texto, um belíssimo escrito por Roland Barthes sobre Antonioni, em maio de 1980, para a entrega do prêmio "Archiginnedio d"Oro”. O mesmo texto foi publicado no livro "Inéditos Vol. 3 - Imagem e Moda" (ed. Martins Fontes). Entre outras coisas, senti falta do filme “Persona”, de 1966, na página sobre Vida e Obra de Bergman. Sei que são mais de 50 filmes em sua cenematografia, mas “Persona”, para mim, deveria estar entre os melhores. É curioso, mais sei que tinha uma fita em VHS deste filme na hemeroteca do curso de jornalismo da Univali.



Escrito por J. Isaías Venera às 16h31
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Tenho um filho e uma companheira especial. Já plantei uma árvore e a estou vendendo com a minha cabana em Piçarras. Agora tenho também um livro. O que posso esperar mais?

TEMPO DE ORDEM é um olhar para a forma sujeito que se delineia nos discursos nacionalistas, nas primeiras décadas do século 20, em Santa Catarina, com destaque a Itajaí. Sujeito ora estilhaçado pela falta de medidas enérgicas que promovessem uma identidade nacional, ora rigorosamente visualizado nos discursos que colocavam em funcionamento uma maquinaria disciplinar; dentre elas, a maquinaria escolar e curricular. Percorro por fontes históricas para, por meio delas, deixar emergir o sujeito. Sujeito do discurso que passa a significar, sobretudo, na prática da leitura. Condição em que os enunciados são movimentados no tempo e na duração e formam a matriz estruturante de processos de subjetivação.

 

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Não se iludam. O melhor do livro é a apresentação escrita pelo Pedro de Souza e o prefácio pelo Felipe Falcão.



Escrito por J. Isaías Venera às 15h15
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  surdo romance da palavras

 

...teodoro é estranho. introvertido. velho. vive preso em seu próprio interior. sua fala, um hiato. alguns dizem que ele se perde do mundo. esconde-se no silêncio. as palavras não são seu forte. ele tem olhar disperso. ausente. ausência que cultua a solidão. talvez solidão para ele seja o jardim florido de onde emana alegria. sara, sua esposa, sempre se queixa: “teodoro é uma sombra maldita”. talvez pelo olhar disperso, ou pelas poucas palavras, ou pelas palavras marginais. as palavras de teodoro, de fato, são hiatos nos diálogos. elas são estranhas, assim como ele. da última vez em que o velho - com sobrancelhas acirradas e olhos esbugalhados - foi internado no hospital, falou muito. mas seria melhor se suas palavras não tivessem sido ouvidas. aqueles que a ouviram, saíram infelizes. teodoro falava sobre morte. morte enquanto fim e não passagem espiritual. os outros queriam ouvir e falar sobre vida. vida eterna. teodoro falava sobre a intolerância religiosa nos hospitais que penduravam santos nas paredes. eles queriam rezar. teodoro falava sobre eutanásia. eles falavam sobre prolongar a vida. teodoro discursava sobre liberdade de escolha. eles falavam sobre as leis da vida que deveriam prevalecer sobre os desejos individuais.

...os outros o acham insignificante. um sinal sem efeito. um ponto num verso quase sem importância na estrutura, numa poética cristã onde não é preciso ponto. não há frase a seguir em uma verdade divina; e o ponto se torna inútil. não é mais preciso indicar o fim de uma oração e o início de outra. dessa forma, os outros o vêm como um ser inútil. teodoro já tem consciência dessa imagem.

...jucelino é um padre. sobrinho de teodoro. é o único, até bem pouco tempo, da família, com quem o homem de poucas palavras dialoga com satisfação. os outros não entendem. ficam inquietos. indignados. boquiabertos. chegam a duvidar da fé deste padre familiar. mas são poucos os encontros que jucelino tem com a família. da última vez em que veio visitar a família, um pouco depois da saída de teodoro do hospital, o homem de deus causou, novamente, inquietude aos outros. ele e o ateu conversaram horas. o tempo era lento para os outros, mas para os dois o tempo se esvaecia com rapidez. os outros questionavam a teologia da libertação, aquela que jucelino defendia. teodoro lhe dava aulas sobre marx. os outros diziam que os padres deveriam comungar somente com deus. teodoro falava que o espírito alcançaria a consciência ideal depois da transformação social. os outros falavam que deus era o senhor de todos. teodoro falava da morte de deus, aquela anunciada por nietzsche. uma morte que representa o declínio de uma ressonância discursiva que movimentava a crença de que as vidas eram explicadas pelas leis de deus. isto num passado não tão longínquo, no período do recrudescimento da razão grega - no iluminismo.

...“como pode um padre passar horas e horas com um miserável ateu?” essa era e continua sendo a pergunta que perturba os outros. ficam injuriados. “um padre que prefere lobos, ao invés de ovelhas”. “um padre que se banha com porcos”. as analogias nunca param numa mente cristã. teodoro interroga: “há deus e há satanás?” “sim, há”, confirma o padre. o velho prossegue com sua opinião: “eles se encontram representados ora nos porcos, ora na pomba que plana no ar, mas, sobretudo, no próprio ato de produzir esses significantes lingüísticos que carregam consigo o caldeirão da religiosidade sem o qual tudo isso não passaria de lindos contos literários que registram os desejos, os dramas e os sonhos de pessoas em diferentes épocas.”

...jucelino acredita nos sentidos que surgem das palavras. para ele, deus torna a vida das pessoas suportável, sem o qual o suicídio seria, muitas vezes, a melhor opção. esse é, no entanto, um ponto de discordância entre os dois amigos. entre tio e sobrinho. mas para teodoro, marx tem razão: “a religião é o ópio do povo”. para o velho, a religião leva as pessoas a viverem uma falsa realidade. já jucelino acredita que a religião faz com que as pessoas obtenham forças, onde elas não encontrariam, para morrer de morte natural.

...o padre ateu degusta o vinho tinto seco e o velho ateu, que acredita em deus, o acompanha. o velho prossegue sua fala: “as pessoas são infelizes. elas aceitam a miséria. elas aceitam a dor. elas vivem para tirar vantagem sobre outras pessoas. elas sentem prazer quando compram um bem de consumo. no entanto, elas se purificam quando rezam, quando estão na igreja, quando se auto-enganam com a imagem do paraíso.” o padre pensa diferente. para ele, a igreja faz as pessoas refletirem sobre seus atos. mesmo desumanas, elas se tornam menos desumanas quando rezam.

...os dois não mudam de opinião. o padre gosta de passar horas olhando os livros de seu tio. quando teodoro se ausentou, jucelino pegou algumas folhas sobre a mesa, ao centro da biblioteca. eram textos de seu tio. ele nunca lera nada de teodoro. o texto começa com um título enigmático: surdo romance das palavras.

(este texto já foi publicado no site www.gavetadoautor.com e na revista literária Peixe)



Escrito por J. Isaías Venera às 23h59
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Alguns dos álbuns que eu mais gosto.

 

 

Deste álbum, eu destaco LONG GONE

Tradução:
 
SE FOI
 
Ela finalmente se foi, longa, longa, partida
Ela se foi, foi, a maior, eles vem, a larga, a mão dela, não conte a ninguém, entenda,
por que tão longe?... ela se foi
 
e Eu fiquei muito quieto olhando na janela
Eu fique curioso para aqueles que eu amo agora
Eu chorei em minha mente onde eu fiquei para trás
A beleza do amor está nos olhos dela...
 
Ela finalmente se foi, longa, longa, partida
Ela se foi, foi, a maior, eles vem, a larga, a mão dela, não conte a ninguém, entenda,
por que tão longe?... ela se foi
 
e eu peguei emprestada uma página da jaula de um leopardo
e eu espreitei na manhã, o sol vitrificou
Ela ergueu a cabeça para a luz no céu
A madrugada se abre no rosto dela
 
Ela finalmente se foi, longa, longa, partida
Ela se foi, foi, a maior, eles vem, a larga, a mão dela, não conte a ninguém, entenda,
por que tão longe?... ela se foi
 
e Eu fiquei muito calmo olhando na janela
Eu fiquei curioso para aqueles que eu amo agora
Eu chorei em minha mente onde eu fiquei para trás
A beleza do amor está nos olhos dela...
 
Ela finalmente se foi, longa, longa, partida.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Escrito por J. Isaías Venera às 21h58
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  Rock and Roll como forma de libertação

 

É preciso pensar de forma nômade o dia mundial do Rock and Roll, 13 de junho, e escapar dos discursos que, simplesmente, apresentam datas e fatos. Ficar ao que já se tem escrito seria o avesso do pensamento marginal e underground que envolve o imaginário sobre o rock. É preciso escapar de uma datação do rock, o que seria fazer um movimento semelhante ao que a indústria fonológica faz - resumir este estilo de música e vida em mercadoria. O Rock and Roll é muito mais do que esta face coptada pelo mercado. É um imaginário que embala o sonho e desejo de gerações.

Fazer da vida uma vida descompassada. Fora das palavras de ordem. Fora da moral.  O surgimento do rock não está desconectado dos processos de disciplina dos corpos e controle da opinião pública, que marcaram o século 20. Não está desconectado, mas, ao contrário, é um fôlego de libertação.

Não seria estranho indagar como que, de dois países com políticas tão conservadoras como os EUA e a Inglaterra, surgiram também movimentos contra-culturais que chocaram de supetão os valores cristalizados. E o Rock and Roll foi, certamente, uma nova sensibilidade musical e estética de vida que surgiu nos anos 50 e, até hoje, é via disforme, catártica, por onde muitas pessoas conseguem se sentir mais livres e leves.

Os Estados Unidos, até 1964, era um país segregacionista, ano em que o presidente John Fitzgerald Kennedy assinou a Lei dos Direitos Civis. Até então, as leis vigentes no país prejudicavam diretamente os afro-descendentes. Além disso, linchamentos e enforcamentos de negros eram comuns e, muitas vezes, eram praticadas por organizações que pregavam a supremacia branca, como o Ku Klux Klan. Nessa tragédia humana, surgiu dois dos grandes gritos, lamentos, dois dos mais importantes estilos musicais: o Jazz e o Blues. Esses dois gêneros influenciaram, entre outros, o surgimento do rock.

Mas o rock surge como um grito caótico que não está relacionado à questão étnica e, sim, mais a uma forma de manifestação artística de extravasar desejos, mesmo que não se saiba ao certo o que se deseja.

O novo estilo musical, o Rock and Roll, embalou as décadas mais românticas e utópicas do século 20, os anos 60 e 70. Revolução cultural na China, descolonização da África e da Ásia, movimentos estudantis em Paris, Praga, Cidade do México, São Francisco, Pequim e Rio de Janeiro. Auge do movimento feminista, com uma grande queima de sutiãs em praça pública. Guerra do Vietnã. O homem chega à Lua. Golpes militares em vários países da América Latina com apoio dos Estados Unidos e as resistências que, aos poucos, minaram as práticas ditatoriais. Ao meio desse caldeirão de derrotas e conquistas civis, surge as condições para o surgimento de uma nova maneira de pensar: a chamada contracultura. Traz à tona os poetas beatniks, os pensadores que fazem uma filosofia do presente, como Foucault, Sartre, Marcuse, Deleuze.  No Brasil, surge o cineasta mais enigmático e ativista político, Glauber Rocha. O movimento tropicalista e tablóides como O Pasquim. Em Santa Catarina, Novembrada e o tablóide Afinal são dois exemplos de resistência à ditadura.

 Esse conjunto disforme de manifestações contra a cultura estabelecida, aceita, legitimada, pode também ser entendida numa dimensão estética. Numa estética de vida menos preocupada com o futuro, com a segurança e o que hoje se rotulou com o politicamente correto. Essas manifestações, em que o rock é uma das mais expressivas e se mantendo numa contínua transformação, são meios de libertação do ritmo neurótico da civilidade. Ritmo neurótico que começa bem cedo, já pelos hábitos sempre repetitivos e valores morais da família, além da inserção, cada vez mais cedo, das crianças na escola. Depois, vem o trabalho. Jornadas intensas de trabalho. A vida parece que se transforma numa grande repetição.

É nesse sentido que o rock pode ser visto como um forte grito por onde se pode respirar novos ares e visualizar um novo horizonte. Quando a banda Pink Floyd lança, em 1979, a ópera rock épica The Wall, é mais um supetão ao aprisionamento que a civilidade nos impõe; critica, sobretudo, o modelo educacional inglês, além de expressar a dor da perda de tantos pais na guerra em prol de uma pátria imaginariamente construída.

Não se pode afirmar que o rock continua a ser a intensa expressão da contracultura mas, certamente, carrega consigo os traços e a vitalidade por onde milhões de pessoas encontram fuga para a neurótica vida civilizada.



Escrito por J. Isaías Venera às 17h49
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O encontro é para todos que se interessam pelo tema e pela psicanálise

Por Alberto Philippi May

 “Desde a antiga Grécia que os mitos e poetas nos falam do amor e do desejo. Do amor como aspiração de fazer de dois um, do desejo como uma força que nos põe em movimento em direção a uma busca que não cessa. O desejo como indestrutível. Do seu lado o amor tem a estranha virtude de legitimar o que é tramado em seu nome. Do ardor à caricia não há o que justificar, do despeito a violência, tam pouco. O que quer de você quem te ama é irrecorrível. O amor só se autoriza por si mesmo.

É para quem quando é por amor? Ou a que nos expomos quando amamos? Do melhor ao pior, evidentemente, tanto da parte do outro como de si mesmo. Mas, o poeta é, assim como nós, um fingidor, finge não saber que amor rima com dor.

Toda essa dimensão do amor e desejo abre-nos em nossa singular experiência no Divã para uma estranha aventura. A linguagem ali se desnatura, a fala se transfigura o que se enuncia é impostura. Eu está em cada expressão, tudo é conjetura mesmo o silencio sussurra. No Divã como no amor, para o sujeito o que conta é o que não pode dizer desse amor, como amor impossível atravessado pelo desejo de outra coisa ... que falta.”



Escrito por J. Isaías Venera às 09h57
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ele sente as árvores e faz parte delas

sem linhas retas e folhas homogêneas

 

ele toca os mais pequenos grãos de areia

e faz parte deles

 

                      sente o mar, o sol, o vento

                      sem representá-los

 

ele, o poeta, está onde a palavra não está

e deixa de existir quando o signo

substitui o seu lugar

                      de criação



Escrito por J. Isaías Venera às 00h55
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  Kafka e a vida como obra de arte

Encaminhei na semana passada este ensaio sobre Kafka ao caderno literário CLAP. 

 

  

 

Franz Kafka (1883-1924) é um homem de meio-dizer. De meio-dito. De meio-dia. De um realismo metafórico. De uma ambigüidade que, a ele, só há meio. Um transgressor nas palavras. Transgressor da linguagem. Um homem que sentia o peso do mundo recair sobre seus ombros, projetando um horizonte sombrio. Por isso, ele era um homem de meio-dia, na mais plena inspiração em Nietzsche do Crepúsculo dos Ídolos: “Meio-dia, o momento da sombra mais breve”.

Um autor que escrevia para se afastar da sombra. Para sentir menos peso. Para se libertar das neuroses. Para desviar o valor transcendental que fixa um sentido único sobre o acontecido fazendo do próprio passado um peso presente. Um sintoma.

Como faria ele, para fazer do peso uma obra de arte? Como construiria uma nova possibilidade de vida? Um novo modo de existência? Como sentiria leveza, quando tinha a impressão de sentir, a cada ocorrência, a insustentável leveza do ser?

Em Nietzsche encontraríamos um caminho: só haveria um meio de se libertar do dever, da verdade transcendental, do niilista fundado por Platão, e este meio é a arte. Por meio dela, a vida se torna possível. A arte é um meio de contrapor à vontade de negação, à vontade que desvaloriza a vida em nome dos valores superiores. A vida como obra de arte passa a afirmar da potência criadora que, por sua vez, difere dos valores eternos do cristianismo ou da razão grega que paralisam a vida fixando o sentido sobre as formas de existir. Kafka encontrou sua libertação na literatura.

Em seu diário, encontramos: “Como não sou outra coisa senão literatura e nada posso ser ou quero de diverso, meu emprego nunca pode me monopolizar, embora bem possa me arruinar”. O trabalho burocrático no escritório de uma fábrica não copitou sua potência, ao contrário, serviu de cenário expressionista para sua literatura. Nem mesmo seu pai autoritário, o comerciante judeu Hermann Kafka, para quem dedicaria uma carta perturbadora, poderia levá-lo à morte. Morte de sua potência. Ao invés de ser sucumbido pelo dever de cidadão, pela Lei, pela moral e pelo “nome-do-pai”, Kafka fez do peso do mundo a potência de sua escrita. Sendo Kafka a própria literatura, sua vida passou a ser sua própria arte. Uma vida como uma obra de arte.

A carta escrita em 1919 para seu pai é o registro de um pai presente, de uma lei presente, de uma estrutura social inscrita em seu corpo e que, somente pela palavra, pela transfiguração do valor, do sentido, o “humano, demasiadamente humano”, poderia ser combatido. Como poderia Kafka narrar as condenações sem que houvesse infração cometida, se a lei enquanto peso não estive pesando sobre seu ser? Como poderia narrar uma maquinaria de tortura inscrevendo sobre o próprio peito do condenado sua sentença, se a disciplina, a hierarquia e a moral não estivessem pesando sobre ele? Na obra póstuma, Carta ao Pai, o autor, consagrado pelos livros “A Metamorfose” e “O Processo”, declarava ao seu pai: “não quero dizer que isso não estava certo, talvez então não fosse realmente possível conseguir o sossego noturno de outra maneira; mas quero caracterizar com isso seus recursos educativos e os efeitos que eles tiveram sobre mim. Sem dúvida, a partir daquele momento eu me tornei obediente, mas fiquei internamente lesado”. Como Kafka escreveria estas palavras se seu pai não estivesse vivo em seu corpo, pesando sua alma?

“Não sou outra coisa senão literatura”. A literatura para Kafka era a cura pela palavra. Palavra que remove palavra. Entre elas, o real de Kafka. É neste sentido que Gilles Deleuze e Félix Guattari referem-se a Kafka como uma literatura menor. Singular. Literatura enquanto máquina de diferença.

Se o peso do mundo era insuportável para Kafka, era preciso criar uma linha de fuga, inventando, como dizia Deleuze, “uma máquina de guerra”. A literatura, assim, é vida. Vida como obra de arte que se delineia num devir menor. Numa máquina de guerra. Numa máquina de destruição de valores. Numa máquina que desenha o mundo como pura aparência. Como pura palavra.

O que faz o homem se anular nos valores transcendentais que o imobilizam de ter uma vida singular? Nietzsche é preciso: nós inventamos Deus porque o mundo nos pareceu pesado demais. O homem inventou Deus, logo depois ele “esqueceu” que o inventou, e passou a tratá-lo como ser transcendental. Desde então ficamos presos aos valores eternos que nos impedem de construir uma vida menor, diferente. Nietzsche e Kafka são duas vidas que ousavam transgredir os valores transcendentais e, para isso, construíram cada um sua máquina de guerra. O resultado, duas vida como obra de arte.



Escrito por J. Isaías Venera às 15h49
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